Biofertilidade

19 comentários sobre “Biofertilidade”

  1. Boa tarde, professor.

    Belo artigo. A questão sobre a relação oxidação/redução é algo interessante de se pensar. Ao mesmo tempo que precisamos construir um solo altamente estruturado e aerado, precisamos de dar condições para a criação de microssítios altamente redutores. Isso me lembra um conceito que o Pinheiro Machado expõe em alguns de seus livros sobre o que chama de ciclo etileno do solo. Seria algo nesse sentido, correto? Segue uma passagem:

    “O gás etileno é largamente conhecido na agronomia convencional por sua ação catalisadora na maturação de frutos e na sua posterior conservação. Como um importante produto da biologia do solo, entretanto, passou a ser conhecido a partir da década de 1970, com os trabalhos de Smith, e na década seguinte, com a publicação do trabalho de Widdowson. Posteriormente (1997) vários pesquisadores – Cook, Penmetsa, Kluson e outros – se interessaram pela ação do gás etileno na renovação da MO do solo, na mineralização do N, na sua potencialidade alelopática e na sua ação no mecanismo aeróbio/anaeróbio, que controla a liberação de íons de macro e microelementos para a nutrição das plantas, em solos com boas estruturas e densidade e que não tenham sido roturados e/ou agredidos recentemente. A principal produção de etileno, que é um regulador crítico da atividade biológica do solo, ocorre nos microssítios anaeróbios, em condições de alta redução.

    Em geral, o crescimento vegetal está limitado pelo aporte insuficiente de nutrientes disponíveis. Muitos nutrientes, como P e o S, se mantêm imobilizados como sais complexos de Fe3+ férrico, isto é, Fe oxidado. Esses sais férricos têm uma carga elétrica muito alta e fixam fortemente nutrientes como P e sulfato que, assim, não são nem lixiviados, nem absorvidos pelas planta (Widdowson 1993)1.

    Em solos bem estruturados e com a conveniente porosidade, as plantas em crescimento têm uma intensa atividade nas raízes e há uma grande proliferação de microrganismos, que são alimentados pelos exsudatos vegetais. Essa alta atividade produz uma redução do nível de O2, e microrganismos anaeróbios iniciam sua atividade, produzindo o gás etileno em microssítios. O etileno inativa, mas não mata os aeróbios, com a consequente limitação da anaerobiose. É um ciclo que se repete constantemente, quando as condições do solo são favoráveis.

    À medida que aumenta o nível de etileno, os sais férricos (Fe3+) insolúveis são reduzidos a ferrosos (Fe2+). Neste estado, os sais férricos até então insolúveis, são solubilizados, e o P e S passam a ser disponíveis nas plantas. Igualmente, o Fe ferroso se fixa aos domínios orgânicos da argila, liberando na solução do solo nutrientes vegetais catiônicos – NH4, Ca, K e outros. Como esse mecanismo aeróbio-anaeróbio ocorre próximo aos pelos absorventes, onde a atividade biológica é máxima, os nutrientes encontram-se em lugar exato para serem absorvidos pela planta. Eis porque as plantas das florestas, com diversidade botânica e das pastagens bem manejadas, sempre são viçosas e sadias.”

    Obrigado pelos textos, precisos como sempre. Necessário frente a chuva torrencial de conceitos e teorias inúteis e antiquadas que recebemos da academia.

    Abraços!

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    1. Prezado Rodrigo Barroso,

      Agradeço as vossas amáveis palavras de incentivo ao nosso trabalho.

      Uma das principais razões de eu manter esse site é justamente para popularizar o conhecimento. O fato de tê-lo como leitor e de ver o seu interesse em conhecer a verdade dos fatos muito me conforta e tenho certeza absoluta que uma nova geração de Agrônomos, como você, está sendo formada, gerada e forjada até mesmo dentro das atuais universidades brasileiras nesse exato momento, algumas das quais, inclusive, super bem conceituadas e ranqueadas no rol das universidades agrícolas ao redor do mundo, como é o caso da ESALQ.
      Uma nova categoria de Agrônomos cujos diplomas não mais serão equivalentes a um “cheque sem fundo”, por não possuírem nenhuma cobertura científica e técnica por terem sido ensinados e doutrinados em cima de premissas falsas, baseadas em meias verdades e em “meia-ciência” . Da minha parte, fico muito satisfeito em poder contribuir para tudo isso de forma totalmente abnegada.

      O fato de eu ter trazido à baila essa questão do Potencial Redox ( Eh) é devido a sua importância em todos os organismos vivos. No homem, nos animais, nas plantas e nos micro-organismos, assim como no sistema solo/planta/microrganismos. Como conceito.

      Entendo a sua colocação com relação ao efeito redutor do etileno nos microagregados do solo, mas não foi com esse intuito somente que eu levantei a questão do potencial redox. Foi pela famosa e maniqueísta luta do “bem contra o mal “. Do Rejuvenescimento contra o Envelhecimento. Da doação de elétrons versus o consumo de elétrons. Foi com esse intuito. Eu quiz mais dar ênfase a Oxidação como um Stress Biotico ou Abiótico mas sempre como um stress oxidativo que prejudica qualquer organismo vivo.

      Coincidentemente, no meu mestrado na MSU, eu fui orientado por um professor emérito, Dr David R. Dilley, que era também um dos revisores da revista Plant Physiology, e portanto um dos maiores fisiologistas vegetais da época, especializado em etileno. No nosso laboratório nós tinhamos um Cromatrógrafo à Gas que funcionava sempre dia e noite, sábados e domingos ininterruptamente e todos os outros departamentos daquela universidade se utilizavam dele. E sim, o etileno era primordialmente estudado pela sua importância na fisiologia pós-colheita.

      Mas sim, ele está envolvido em muitos dos mecanismos que ocorrem nos micro agregados do solo bem como de importantes mecanismos na fisiologia da raiz sinalizando condições de alagamento, formação de aerênquimas, no crescimento e desenvolvimento das raízes, na exocitose, e em vários outros mecanismos ainda por serem descritos.

      Se você imaginar uma cruz formada por um eixo horizontal representando o pH com o 7.0 exatamente no meio dessa reta e outra reta vertical cruzando essa reta horizontal do pH bem no meio ( pH 7.0), representando o Potencial Redox ( Eh) onde abaixo da reta horizontal estaria a faixa redutora e acima dessa reta, a faixa oxidante, o melhor lugar para se estar seria ligeiramente a esquerda da reta do Potencial Redox ( isto é com pH ligeiramente abaixo de 7.0) e ligeiramente abaixo da reta horizontal, ou seja ligeiramente na faixa redutora. Quadrante inferior esquerdo próximo a intersecção das duas retas..

      Da mesma forma como ocorre com o pH, ou seja, onde não queremos nenhum dos dois extremos e o ideal seria um pouco abaixo da neutralidade ( ph 7.0 ), assim também ocorreria com o Eh , quando o ideal seria um pouco abaixo da neutralidade já então no quadrante redutor e isso seria válido para qualquer coisa seja homem, animal, planta, microrganismo ou solo.

      Espero ter contribuído para esclarecer algumas das suas dúvidas.

      Um grande abraço

      Jose Luiz

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  2. Bom dia Professor, muito obrigado pelo texto, fez bastante sentido com o restante do material encontrado nesse blog. Essa visão eletroquímica dos processos biológicos clareou bastante as coisas pra mim, muito obrigado.
    Tem um ponto que não é essencial no texto, mas me despertou a curiosidade: qual o efeito das eras glaciais no solo?
    E o que o senhor acha do uso do xisto pirobetuminoso como remineralizador do solo?
    Muito obrigado
    Abraço
    Fábio Ribeiro

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    1. Boa Tarde Fábio,

      Fico satisfeito em poder preencher as lacunas deixadas pela academia.
      Sim, a vida é um processo que depende dessa energia que vem do sol e no final das contas se manifesta
      por meio de reações químicas onde o potencial redox é de suma importância.

      As eras glaciais, que ocorrem a cada 10.000 anos, tem o poder que “rejuvenescer” os solos do planeta pela
      pressão que as geleiras exercem sobre a rochas situadas abaixo do solo terrestre.
      Como já se passaram mais de 10 mil anos da ultima era glacial, os solos atuais estão por assim dizer “pedindo””
      uma renovação
      que lhes pode ser fornecida pela adição dos Pós de Rocha, entre os quais, o Xisto poderia estar incluído.

      Não tenho experiência com o material que você mencionou, que seria o Xisto Pirobetuminoso, mas se não tiver nenhum
      componente que o desabone como por exemplo metais pesados, produtos próximos ao petróleo com o próprio betume
      que o denomina, poderia ser usado. Você teria que ter certeza que esse material não é fitotóxico, em primeiro lugar.

      Temos usado a Mica Xisto com relativo sucesso, também pós de ardósia, pós de basalto, pós de Sienito Nefelinico,
      pós de Glauconita, etc…

      Attn

      Jose Luiz

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  3. Obrigada Sr. Jose Luiz, por mais esse texto enriquecedor!

    Pesquisando por insumos usados na agricultura biológica, constantemente descubro que seus benefícios vão além e contemplam também a nutrição humana e animal.
    Aplicamos Serenade nos morangueiros, bebemos Yakult e um dos ingredientes da ração que compramos para nossa cadela é o probiótico Bacillus subtilis, por exemplo.
    No artigo o Sr. cita alguns alimentos fermentados como ambientes redutores e lembrei do kombucha e de uma dúvida que sempre tive: alguma forma de aproveitar o Scoby (Symbiotic Culture of Bacteria and Yeast) na agricultura?

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    1. Bom Dia Ione,

      O Bacillus subtilis é também usado para fazer a soja fermentada, conhecida por “Nattô”, uma iguaria japonesa, e é um grande produtor de Kitamina K2 ( também conhecida por MK7). Eu já vi essa bactéria também sendo usada em probióticos humanos como o “Garden of Life”. Eu inclusive já usei e tenho certeza que ela também faz parte do meu microbioma intestinal que eu preservo e alimento periodicamente com acido fúlvico, carvão vegetal, levedura de cervejaria, fibras solúveis, etc…

      O Kombucha também é francamente redutor. O que sobra, que é aquela geleia que fica flutuando, você pode simplesmente jogar na pilha de composto ou ainda bater no liquidificador, coar e dar para as plantas. O Kombucha produz bastante ácidos orgânicos voláteis porque eu consegui corroer todas as dobradiças de um armário de cozinha lá de casa, onde eu fabricava por um tempo.

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      1. Olá!
        Quando li sobre os benefícios do consumo de B. subtilis pesquisei fontes e descobri o “Nattô”, mas a descrição não me apeteceu: “aroma semelhante a um queijo cheiroso ou meias antigas e com uma textura desagradável e fibrosa que é pegajosa e viscosa ao mesmo tempo”.
        Bom saber como aproveitar o Scoby e descobrir que preciso ter cuidado com os ácidos orgânicos voláteis. Obrigada!

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      2. Realmente Nattô é para quem tem estômago forte.
        Algumas bactérias desenvolvem o cheiro conhecido como cheiro de chulé, que também
        é resultado do trabalho de bactérias. Alguns queijos tem esse cheiro também.

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  4. Dr Vinagre,
    Seu trabalho de levar informação científica sobre temas incutidos e cascudos é brilhante.
    Agradecemos seu olhar, didatismo e sabedoria.
    Abs
    Eduardo

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  5. Obrigado Dr. José Luiz
    sou leitor assíduo dos seus artigos, ao ler esse, fico imaginando já pensou se todos nós da cidade e do campo, fizéssemos a reciclagem de sei lá 50% de todos nossos materiais orgânicos produzido, através de processo de compostagem bem feita, adição de microrganismos, sub-produto tipo pó de rocha e muito outros, acredito que devolveríamos grande parte de tudo que o solo já nos deu e muitas fabricas de adubos químicos iriam repensar seus conceitos, não dá pra pensar diferente, é nos que usa tudo que o solo tem de bom, portanto nós temos a obrigação e condições de devolver tudo a ele, se nós não começar agora não vai haver futuro.

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  6. Obrigado Dr pelo texto. Você tem algum “pó de rocha” para indicar? Pelo que entendi, pó de rocha pode ser uma variedade de rochas. Alguma em especial para eu procurar? E quando você diz “matéria orgânica” posso pensar em húmus de minhoca … condicionador de solo … ?

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