“ Frutas e Verduras perderam de 40 a 90% do seu valor nutritivo nos últimos 100 anos”
José Luiz M Garcia
Instituto de Agricultura Biológica
Março de 2024
Na virada do século passado, portanto em 1900, num levantamento ( survey ) feito
pelo govêrno americano, a ingestão média de Magnésio por pessoa, homem ou
mulher, era de 500 mg por dia. Em outro levantamento, esse mesmo valor foi reduzido
a 175 a 225 mg por dia (1, 2).
Em 1936, Senadores testemunhavam perante o Congresso Americano que , os
alimentos consumidos naquela época estavam deficientes dos nutrientes básicos , e já
alertavam : “estamos nos tornando uma nação de grandes estômagos “ pelo fato dos
estômagos normais não conseguirem mais conter todos os nutrientes, não importando
quanto você ingira de alimentos ( 3 ) , razão pela qual o famoso ditado que “Uma maçã
ao dia, mantém o Médico a distância”( An apple a day, keeps the doctor away),
independentemente da sua veracidade, não estar mais funcionando. Hoje
precisariamos de 2 a 3 maçãs para obter a mesma quantidade de nutrientes contidos
na mesma maçã que a 100 anos atrás.
A literatura enfocando a diminuição dos minerais , vitaminas e demais nutrientes nas
futas e verduras é vasta ( 4, 5, 6, 7, 8, 9 ).
E o pior, já sabemos de ante-mão, a resposta a esse desafio não virá nem da
Academia cooptada, míope e falida, por não conseguir diagnosticar corretamente e
resolver outros problemas agronômicos como “Amarelinho” e “Greening” dos Citrus,
nem do chamado Agronegócio, especialista em produzir artefatos biológicos
transgênicos que imitam os alimentos originais, e muito menos dos govêrnos, quer de
direita ou de esquerda, por desconhecerem totalmente essa questão. Essa é uma
questão supra partidária que requer uma decisão imediata por parte da sociedade e
de todos os habitantes do planeta.
Linus Paulling ( 1901-1994 ), o único cientista a ser agraciado com dois Prêmios
Nobel, é geralmente citado como sendo o autor da frase: “ Você pode ligar cada
dõença, moléstia ou qualquer problema de saúde a uma deficiência mineral”
Me refiro específicamente ao caso do Magnésio, como exemplo, pela complexidade
em abordar todos os demais nutrientes, porém o que ocorre com o Magnésio,
também ocorre com os demais minerais e nutrientes.
O Magnésio é importantíssimo para a nutrição humana, animal e vegetal.
No homem, é o quarto maior íon em quantidade logo após o Ca, K e Cl, e o segundo a
nível intracelular logo após o Potássio. Essencial para o bom funcionamento do
Sistema Nervoso e Sistema Cardiovascular. O Magnésio regula mais de 325 enzimas no
nosso corpo, sendo que as mais importantes delas produzem, transportam,
armazenam e utilizam energia (ATP). Também a síntese de RNA e DNA, crescimento e
reprodução celular ( 2, 8, 9 ).
O magnésio comanda a corrente que leva a faísca elétrica pelos kilômetros de nervos
no nosso corpo. Ele tem inúmeros papéis fisiológicos, entre os quais o contôle da ação
nervosa, a atividade cardíaca, transmissão neuro-muscular, contração muscular e
tônus vascular, pressão sanguínea e fluxo do sangue nos vasos periféricos (2 ).
O Magnésio modula e controla a entrada e a liberação de cálcio na células, que
determina a atividade muscular. Cientistas determinaram há quase 90 anos atrás a
essencialidade do Magnésio e, a cada ano, a pesquisa determina novas maneiras nas
quais ele é indispensável a vida, e no entanto o seu nível nos solos e, por conseguinte,
nos alimentos, é diminuido na cadeia alimentícia continuamente ( 2, 8, 9 ).
Também é muito conhecido o seu efeito como estimulante leucocitário descoberto
por Pierre Delbet, médico francês, em 1940. ( 12 )
É interessante ressaltar que, um importante estudo japonês de 1957 demonstrou
que, quando a dureza da água era maior, a mortalidade devido as doenças
cardiovasculares era menor. Depois, outros estudos de outras partes do mundo
demonstraram a mesma tendência ( 6, 9 ). Quando a dureza da água era removida ( os
saís de Ca e Mg ) a incidência doenças cardiovasculares fatais voltou a aumentar cerca
de 20%. Existia algo nas águas duras que de certa forma protegiam as pessoas de
morte por complicações cardiovasculares, que é hoje, o principal problema de saúde e
mortalidade em todo o mundo civilizado. A pesquisa mais tarde demonstrou que esse
fator de proteção da água dura era, na verdade, o Magnésio ( 9, )
Um nível baixo de Magnésio nas células do músculo cardíaco ( cardiócitos ) pode
provocar arritmias. Podendo ser desde simples palpitações a palpitações severas
incluíndo distúrbios que chegam a ameaçar a via.
Um nível adequado de magnésio é necessário para que o músculo relaxe após a
contração, que é regulada pelo Cálcio. Entretanto, hoje em dia, o Cálcio ocupa uma
posição de destaque na suplementação, devido ao mêdo indiscriminado e injustificado
da Osteoporose. Contudo, uma relação de 1:1 já é recomendada por alguns autores ( 2
), ao invés da anterior 3:1, de Cálcio: Magnésio. Aliado a isso temos ainda a dificuldade
de suplementar o Magnésio pois a maioria dos compostos contendo Magnésio,
quando ministrados em altas dosagens, provocam diarréia. Já com o Cálcio isso não
acontece.
Nos vegetais, o Magnésio pode ter a sua absorção comprometida por outros cátions
como o K +, NH4 +, Ca ++ e Mn ++, assim como H+, ou seja, baixo pH. Interessante
lembrar que é maior a acumulação de amido em plantas com deficiência de Magnésio.
Ele aumenta a síntese de Proteínas inclusive RNA e DNA e várias outras enzimas. De
acôrdo com Marschner ( 10 ), a necessidade de Magnésio para um crescimento ótimo,
está na faixa de 0,15 a 0,35% do peso seco das partes vegetativas.
Talvez a principal função nos vegetais seja mesmo o fato do Magnésio ser o centro
da molécula de Clorofila, a grande responsável pela vida na Terra.
Nas últimas décadas as evidências tem aumentado, de que a a deficiência de
Magnésio está aumentando em eco-sistemas florestais na Europa Central, acentuada
por fatores abióticos como poluição do ar, acidificação do solo, causando diminuição
do crescimento radicular que dificulta as plantas de obterem o seu próprio sustento do
solo ( 9 ) e, de certa forma, derrubando a teoria de que a carência de Mg é provocada
pela nutrição vegetal ser baseada apenas em NPK.
Na maioria dos casos, o conteúdo elevado de Magnésio melhora a qualidade
nutricional das plantas.
Porém, a sua forma mais utilizada, o Calcário Dolomitico, que contém Dolomita ou
Carbonato de Magnésio, é muito pouco aproveitado pelas plantas, que ficam a espera
de que o mesmo seja transformado em Óxido de Magnésio, para depois, então,
transformar-se em Mg++, a forma que é absorvida pelas plantas. Melhor seria utilizar
fontes mais solúveis e/ou mais aproveitáveis, como Sulfato de Magnésio, prontamente
assimilável por via foliar, se quisermos ter plantas executando a sua principal tarefa
que é a fotossíntese, em razão do aumento da quantidade de moléculas de clorofila, o
que irá necessitar também de um bom suprimento de Nitrogênio, Manganês, Ferro,
etc.. ou seja, de todos minerais involvidos na sua síntese. Entretanto, essa tarefa é, as
vezes, impraticável em função do custo, dificuldade de aplicação, etc…
Por exemplo, Hipomagnesemia ou “Tetania dos Pastos” é provocada pelo excesso de
Potássio, principalmente em países de clima frio, embora aconteça com frequência no
Brasil. O excesso de Potássio inibe a absorção de Magnésio pelas plantas, causando
uma deficiência, o que leva aos sintomas da tetania geralmente em bovinos.
Como o Potássio é muito sobre utilizado, em função da idéia acadêmica errônea, e
que já se arrasta há mais de 180 anos, de que plantas são feitas apenas de N, P e K,
poder-se-ia esperar sempre uma deficiência desse mineral nas plantas cultivadas.
O magnésio é encontrado preferencialmente em vegetais com a cor verde escura
como o espinafre devido a sua presença na molécula de clorofila, porém outras fontes
importantes são mencionadas como sementes de abóbora, cacau e chocolates
amargos, amendôas, amendoins, castanha de cajú, etc…
Acredita-se que essas fontes naturais, apesar de terem uma concentração de
magnésio mais baixas que a dos suplementos e outros produtos à base de sais
inorgânicos, sejam bastante superiores a essas devido a sua elevada taxa de absorção
que as vezes podem chegar até a 98%.
Com relação a exames de sangue que detectem o nível apropriado de Magnésio nas
pessoas e animais, vamos ter que nos contentar por um lado, com a dificuldade de
medi-lo a nivel intracelular e termos que medi-lo no soro que contém apenas 1% ( ou
até menos segundo alguns autores ) de todo o pool de magnésio, contido no corpo , já
que esse encontra-se distribuido na estrutura óssea, músculos, etc… e, por outro lado
saber-mos que os níveis sanguíneos tidos como “normais” representam apenas os
valôres médios de uma distribuição Gaussiana, obtidos em uma população
sabidamente carente desse mineral.
Esperamos estar contribuindo para a discusão sobre a nova onda de Agricultura
Regenerativa que tudo o que pretende é regenerar o Planeta porém sem contudo
regenerar a nossa nutrição. É preciso que, mais uma vez, nos lembremos que todo o
movimento de repensar a agricultura quimicalizada nasceu da percepção de que os
alimentos produzidos por essa visão acadêmica e míope, originada por Justus von
Liebig, não estava ( como não está ) produzindo os alimentos com a densidade
nutricional necessária que os qualifiquem serem rotulados como “ alimentos “. É
preciso que façamos uma clara distinção entre alimentos e nutrição.
O Agronegócio não produz nutrição, mas sim alimentos. São produzidos verdadeiros
artefatos biológicos quiméricos ao reduzirem a sagrada tarefa de nutrir a população a
um simples e relez negócio. A biologia não pode jamais ser reduzida a uma transação
econômica pura e simples. Ela é, antes de tudo , uma transação biológica e , portanto,
divina.
Referências
- Altura, B.M ( 1994 ) Introduction: Importance of Magnesium in physiology and
medicine and the need for ion selective electrodes, Scand. J. Clin. Lab. Invest.
Supply, vol 217, pp 5 a 9. - Sircus, Mark. ( 2007 ) Transdermal Magnesium Therapy, Phaelos Books,
Chandler , AZ, pp 291, 369 pgs. - Senate Document 264, 74 th Congress, 2 nd Section, 5 de junho de 1936.
- Davis, D.R. ( 2009 ) Declining Fruit and Vegetable Nutrient Composition: What
is the evidence ?, HortScience, journals.ashs.org - Gus, W, et all ( 2016 ) Magnesium deficiencies in plants: An Urgent Problem,
Crop J., 2016, 4:83-91. - Moura, Luiz ( 1997 ) Comunicação Pessoal.
- Colins, Stacey ( ) Fruits and Vegetables are less nutritious than they used to
be, National Geographic. - Carolyn Dean, M.D. ( 2007) The Magnesium Miracle, Ballantine Books, N.Y.,
309 pgs. - Seeling, M.S. & Rosanoff, A. ( 2003) The Magnesium Factor, Avery Inc., N.Y.,
376 pgs. - Marschner, Horst ( 2002 ) Mineral Nutrition of Higher plants, Second Edition,
Academic Press, 899 pgs. - Miranda, Eduardo (2010) Compreendendo a Magnesioterapia ( Magnesium
Chloride Therapy )
http://artigos.netsaber.com.br/resumo_artigo_53622/artigo_sobre_compreendendo-
-a–magnesioterapia–magnesium-chloride-therapy- - Delbet, Pierre ( 1940 ) Politique Préventive du Cancer, édité par La Vie Claire,
Paris, France. - Delbet, Pierre ( 1946 ) Agriculture et la Santé, Ed. Bellenande, France, 112 pgs.
…Talvez a principal função nos vegetais seja mesmo o fato do Magnésio ser o centro
da molécula de Clorofila, a grande responsável pela vida na Terra…
Analogia do Ser vegetal com o Ser humano: o verde das plantas ,devido a clorofila , tem no cerne desta molécula o Magnésio; o vermelho do sangue ,devido a hemoglobina, tem o Ferro no meio desta proteína. Assim a vida na Terra , na sua essência biológica, é semelhante entres os seres. Que beleza!!!