O Paradoxo do Potássio

 

                                      “Até as Rochas clamarão”  Lucas 19:40

        Em Outubro de 2013, foi publicado na Renewable Agriculture and Food Systems, uma publicação cientifica séria revisada por pares, um estudo que coloca sérias questões sobre o problema do potássio, mais precisamente de seu fertilizante químico potásico mais usado, ou seja, o Muriato de Potássio, também chamado de KCl. Essa publicação está disponível on line pela Cambridge University Press e vários outros sites.

       Dr Saeed Khan e Dr Mulvaney, dois pesquisadores da University of Illinois que conduziram essa pesquisa retiraram amostras de solo ( compostas de 5 sub amostras ) a cada 2 semanas e as submeteram a análises de K-trocável efetuadas pela mesma pessoa com ou sem secagem ao ar, usando o mesmo protocólo de análise.

       O que esses srs. conseguiram desvendar com suas pesquisas foi, nada mais nada menos do que, uma realidade estarrecedora. Pra começar as analises de K trocável variavam tanto que, qualquer decisão que você quisesse tomar baseado nessas mesmas analises, seriam simplesmente inconclusivas.

        Para tornar as coisas ainda piores, o procedimento padrão das analises de solo convencionais requeria que as analises fossem feitas na “Terra Fina Seca ao Ar” (TFSA), o que tornava os valôres de K trocável ainda maiores e igualmente variáveis. Porém, Khan et all ( 1 ) foram capazes de observar um padrão de valôres mais aumentados quando a analise era feita em terra previamente seca, quando comparadas as amostras úmidas recém colhidas, o que denota uma maior liberação de potássio em solos secos.

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Figura 1. Mudanças quinzenais em amostras colhidas em 96 datas entre 13 de março de 1986 e

                 15 de março de 1990, úmidas (FM de Field Mist) e Secas ao ar ( AD-de Air Dried ) no K trocável  

                 coletadas de 0 a 18 cm em um solo Drummer usado em rotação soja e milho. Nenhum 

                 fertilizante P ou K jamais  foi aplicado desde 1970. Cada ponto é a média de 9 determinações.

        É esse tipo de informação que deveríamos estar comemorando, como um país agrícola, e não o atracamento de 28 navios carregados de Muriato de Potássio ( KCl ) como se isso fosse significar a nossa soberania como produtores de alimentos.

        Nesse mesmo estudo eles provaram, por A + B, que plots nunca fertilizados (desde 1876, Morrow plots ) continuavam acumulando Potássio mesmo sem nenhuma adição .

        Segundo o Dr Mulvaney, o milho que produz 209 sacas/hectare remove 51,64 kg de K , porém a palhada retorna 202 kg de K por hectare, ou seja 4 vezes mais, e isso a industria de fertilizante e seus funcionários que trabalham na Embrapa ou nas universidades não te informam. Os produtores estão sendo enganados.

        Essa tese de PhD deixou claro que a análise de Potássio não serve para o gerenciamento da adição de quantidades de K ao solo.

          Em 2.100 testes de campo foi revelado que a adição de Potássio foi 93% ineficiente para aumentar a produção e houve até um caso de redução da produção.

          Esse estudo questiona fortemente o uso intensivo de KCl (muriato de potássio) visando o aumento de produção.

           Além desses fatos alertam para a redução de Cálcio e Magnésio, aumento para a absorção do Cádmio, e para a redução da nitrificação e consequentemente do íon nitrato.

         A conclusão dessa tese foi a de que não houve aumento significativo de produção pela adição de Potássio.

           O Potássio é um íon inorgânico que não está presente em nenhuma molécula nas plantas porém seria o principal cátion presente no vegetais. Por ser extremamente solúvel ele é constantemente “lavado” das folhas e do perfil do solo em condições chuvosas e não é possivel controlar essa perda. Ele simplesmente migra para as camadas mais profundas do solo, onde é resgatado pelas raízes, que promovem , dessa forma, uma reciclagem até a superfície.

            Compete com o Cálcio e o Magnésio pelo sites de fixação nas argilas, e dessa forma expulsa-os das argilas e promove a compressão das mesmas , com isso diminuindo a CTC do solo num fenômeno chamado de “envelhecimento” do solo, principalmente das argila do tipo 2:1. Isso ocorre irônicamente com o Ca e o Mg, mesmo eles tendo mais cargas ( são bivalentes positivos), devido ao seu tamanho menor, fato esse bastante enfatizado pelo Dr Arden Andersen no seu livro “Science in Agriculture” ( 2 )

            O processo de disponibilização do Potássio é muito dinâmico e rápido e é a umidade quem regula essa liberação. 

           O Potássio analisado no solo seria apenas a ponta do iceberg e representa somente uma pequena fração de todo o Potássio presente no solo, que faz você deduzir que o solo precisa de K.

             Segundo, o Dr Mulvaney o solo é uma mina de potássio. Expansão e Contração ( Umidade ) é o que controla a liberação do Potássio.

              Quando vc aplica potássio ( KCl ) no solo ele é “sugado”pelas argilas e permanece “ trancado “.

Você reduz a CTC e reduz a capacidade do solo de suprir potássio porque ele estará, então, “trancado “.

               O Podcast listado nas referências ( 3 ) se refere ao fato de um determinado produtor em Ohio ter solicitado a realização de analises de solo e pelo fato dos resultados de Potássio terem vindo baixos, pediu incontinente que o fornecedor local adiciona-se, o que lá é feito por caminhões especiais que aplicam o fertilizante à lanco. Não deveria, mas realizou as analises novamente e verificou que o nível de potássio estava mais baixo. Deduziu , então, que o fornecedor o teria aplicado em um outro terreno sendo, até mesmo indelicado chamando o coitado do motorista de idiota. Solicitou, então, que fosse feita uma nova aplicação de potassio somente para descobrir que o nivel analisado no solo, novamente, tinha diminuido ainda mais. Essa história serve de exemplo para o fato do Potássio diminuir o nível analisado todas as vezes em que for utilizado.   

                  O mesmo aconteceria se vocês analisassem o solo após uma calcareação pesada. Poderiam observar uma redução no nivel de Fósforo solúvel, bem como uma  redução drástica nos níves de alguns micronutrientes. É a “siênssia” do solo brasileira em todo o seu esplendor.

                  Então nesse exato momento deveríamos perguntar como poderemos então aferir o quanto de potássio deveria ser aplicado em um solo ? O Dr. Mulvaney sugere que se faça na própria fazenda o que ele chamou de “Strip Test” ou Teste de Faixas, isso é acrescentar potássio em doses crescentes em faixas e verificar qual quantidade propicia o maior desenvolvimento das lavouras até que se tenha uma melhor sugestão e eu acrecento, se livrar da paranóia de ter que aplicar KCl para se ter produtividade e ficar torcendo para a chegada dos navios carregados dessa comodity. 

                    Essa informação é tão importante que se não for divulgada “até as rochas clamarão” como manifestado em Lucas 19:40.

                    Espero que os  “sentistas “ do solo, a partir dessas novas evidências,  se livrem definitivamente do von Liebig e de seus conceitos para lá de ultrapassados.

José Luiz M Garcia

Maio de 2022

Referências

  1. S.A.Khan, R.L. Mulvaney & T.R. Ellsworth ( 2013) The Potassium Paradox : Implications for Soil fertility, crod production and Human Health, Renewable Agriculture and Food Systems : 29 (1),

3-27, 2013,

  1. Arden B. Andersen (2000) Science in Agriculture,  Advanced Methods for Sustainable Farming, Acres USA, Austin, Texas. 376 pgs.
  2. John Kempf & R.L. Mulvaney (2020) The Fallacy of Mainstream Potassium and Nitrogen Fertilization, Podcast Advancing Eco Agriculture, https://www.youtube.com/watch?v=GMPvSHYZd50&t=56s

2 comentários em “O Paradoxo do Potássio”

  1. O silicato de potássio, aplicado como fertilizante foliar, não seria uma alternativa mais sustentável quando comparada a outros fertilizantes como Cloreto de potássio?

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