Silício

                                   

 A Pedra Angular da Agricultura

José Luiz Moreira Garcia

 Instituto Brasileiro de Agricultura Biológica

 Natal de 2025

     O papel da  verdadeira ciência que seja séria, independente, honesta e despojadade todo o estrelismo e egos inflados que, sabemos hoje,  existirem (poluirem ?), esses meios movidos a capitais públicos, privados, bem como pela admiração e opinião de seus pares, sempre foi e sempre será interpretar de forma totalmente imparcial a verdadeira os fatos, ou seja, a realidade.

     Liebig disse que “ Fatos são como grãos de areia que são movidos pelo vento,  porém os princípios são esses mesmo grãos  fundidos (transformados) em rocha” ( 1 ).

     Essa realidade, é o resultado inexorável da evolução da Natureza em 4,5 bilhões de anos. O resultado desse maravilhoso trabalho evolucionário é atribuído por alguns( nos quais eu me incluo ) a um comando Divino, tamanha a sua complexidade, a ponto do Ecologista americano, Frank Edwin Egler escrever em 1977 que : “ Nature is not more complex than we imagine. It is more complex than we can imagine “, para ilustrar a incomensurável complexidade e profundidade dos sistemas biológicos e ecológicos que estão além da compreensão humana e , ao citá-lo, presto aqui a minha singela homenagem a esse grande ecologista, posto que, em tempos de internet e Instagran, esse fato se tornou raro, porque as pessoas perderam seus sensos mais básicos de educação, civilidade e ética, para ganhar likes e posarem de especialistas em todas as áreas possíveis e imagináveis sem, contudo, darem crédito é quem de direito.

    Não obstante, todo o tremendo avanço tecnológico em todas as áreas do conhecimento humano nos últimos séculos ( vide Comunicação, Transporte, Medicina, Área Militar, etc… ),  a Agricultura, aparentemente, é a única que ainda continua presa a conceitos velhos e ultrapassados no que concerne ao modo sobre como nós deveremos nutrir as nossas lavouras, quando se prende a conceitos lineares como “essencialidade”, e a sobre a forma como atribui importância aos nutrientes ao classificá-los em “macros “, “intermediários” e “micros”, sem levar em consideração a sua verdadeira importância molar, determinada pela química. Só para título de ilustração vejam o caso do Boro.

      A importância de cada um dos elementos que compõem um vegetal deveria ser ditada não somente por esse único critério de essencialiddade, mais sim pelo papel que esse elemento desempenha em todas as outras esferas que participam da vida desse mesmo vegetal, tais como o aumento na produção e formação de raízes ( que será determinante na absorção dos demais elementos, portanto, na nutrição ) , no efeito que um elemento teria na liberação e, portanto, na disponibilização de outro elemento, no efeito que promove na colonização de ciabactérias, micorrizas arbúsculo vesículares na rizosfera, na redução da lixiviação de  nutrientes importantes como P, N e K, melhorando a assimilação pelas plantas, por formar biocolóides.

     Isso tudo sem mencionar efeitos óbvios, até mesmo para essa legião de acadêmicos míopes, como aumento da resistência aos insetos e doenças, aumento da resistência a estresses bióticos e abióticos, melhoria na arquitetura vegetal favorecendo o aumento da fotossíntese, também em decorrência no aumento da eficiência da nutrição luminosa ( acadêmicos varzeanos frequentemente se esquecem até que as plantas se nutrem de luz, carbono, oxigênio, hidrogênio e não somente de minerais ).

      Pois bem, todos esses efeitos, anteriomente citados,  são observados ao se nutrir as plantas com o elemento silício  ( 2 ). 

     O Natal nos lembra que é chegado o momento de nos conciliarmos com todos e se for preciso pedir perdão. E, sendo assim, a Academia Agrícola, ás vezes depreciativamente também denominada de “Academia do Brejo “, deveria começar a pedir perdão ao elemento Silício e aos seus pesquisadores, notadamente ao Dr Emanuel Epstein e principalmente ao Dr. Edgar Quero Gutierrez.

     Isso porque nenhum de todos os elementos da tabela periódica foi tão  sistematicamente desprezado, ignorado, mal entendido, incompreendido, vilipendiado e  “varrido para debaixo do tapete acadêmico da Academia Varzeana” de aluguel, como o elemento Silício.

      Que esse artigo também sirva para trazer à luz do público brasileiro, os trabalhos de um cientista exemplar de ponta, que dedicou toda a sua vida para entender melhor os benefícios do Silício às plantas. Curriculum ilibado com formação em Biologia Malecular no México,  M.Sc. em Biologia Molecular pela Universidade da Califórnia, Los Angeles tendo recebido seu PhD pela mesma instituição, em Fisiologia Vegetal. Trata-se do pesquisador, Dr Edgar Quero Gutierrez ( 1952- 2020) ( 2 ).

      Dr Quero foi um revolucionário para a sua época e que viu na própria pele os efeitos da chamada “Revolução Verde “ posto que era mexicano, e que se autodefinia como “no soy igual a nadie, soy un científico de frontera y vine a romper paradigmas “  e que concordava que “el conocimiento tiene que ser plausible, entendible, y llegarlo más lejos posible”. Em seu livro-manual , organizado por sua filha e colaboradores após a sua morte, reúne de forma resumida e exemplar todas as décadas dedicadas a sua pesquisa científica de fronteira.

     Dr Quero se notabilizou pelas seus estudos em Microscopia Eletrônica de Varredura e outras técnicas, com as quais analisou de forma elementar o solo e as plantas de milho, o que lhe permitiu corroborar os resultados alcançados há quase 100 anos atrás por Latshaw ( 3 ).   

     Foi um apaixonado pelo milho, ao ponto de se aprofundar em seus estudos arqueológicos que lhe levaram a visitar sitios arqueológicos que somente eram permitidos aos estudiosos e inciciados. Dominou a técnica da leitura dos hiroglifos mayas, o que permitiu decifrar o glifo refente a “Milpa “, ou seja o cultivo de subsistência dos mayas, baseado no trio, milho, feijão e abóbora, com os quais eles se alimentaram por centenas de anos. Entre os glifos mayas havia um que o desafiou pelo resto de sua vida, o glifo referente ao Silício ou seja o mineral que conferia às plantas o divino e extraordinário poder de aumentar sua capacidade de transformar a luz do sol em matéria viva, ao qual denominou de “Nutrición Luminica “, abordado no seu livro-manual ( 2 )

Fig 1- Composição Elementar do milho em base seca .

Fonte : Pioneer – USA

     Como é possivel ver na ilustração acima, o que realmente compõe a planta do milho após a retirada de 80% de água são extamente , e em ordem de impotância, Oxigênio, Carbono e Hidrogênio, perfazendo esses três ingredientes cerca de 95% da matéria seca. E somente 5% seriam, então, compostos de Nitrogênio, Silício ( não mostrado na figura – não sabemos se intencionalmente ou não), Potássio e demais constituintes.

    A situação ficaria mais bem ilustrada com o infográfico abaixo, baseado nas analises de Microscopia Eletrônica de Varredura obtidas por Quero (2).

      Após os trabalhos do Dr Quero fica, então, em têrmos quantitativos, evidente o papel do Silício, bem como a sua interrelação com o Alumínio e o pH do solo e seu papel desempenhado na  planta, independentemente do rótulo míope que a academia queira lhe conferir.

      De acôrdo com Quero :

  1.      O Silício incrementa a produtividade e a qualidade das colheitas agícolas. Desde 1848 existem inúmeros trabalhos de campo demonstrando o benefício de obter colheitas superiores, mediante a fertilização com o Silício tal como observado no arroz ( 15 a 100%), Milho ( 15-35%), Trigo ( 10 a 30% ), futas como avocado e manga (40 a 70% ) , hortaliças ( 50 a 150% ). Primeiramente a nutrição com Silício, reforça na planta a sua capacidade de armazenar e distribuir carboidratos requeridos para o crescimento e a produção da lavoura e a autoproteção contra doenças causadas por fungos e bactérias e contra o ataque dos insetos e ácaros frente as condições desfavoráveis do clima, ao estimular o desenvolvimento e a atividade de estruturas poliméricas na cuticula, ou sejam os tricomas e fitólitos na superfície das folhas.

    Em segundo lugar, o tratamento do solo com silício biogeoquimicamente ativo, otimiza a fertilidade do solo pela melhoria na retenção e disponibilidade de água, e por suas propriedades físico químicas de manter os nutrientes em uma forma disponível à planta.

2.      O Silício restaura o solo degradado e aumenta o seu nível de fertilidade para a produção agrícola. São extraidos entre 40 a 300 kg de silício por hectare anualmente. A falta de ácidos monosilícicos e a diminuição do silício amorfo conduzem a destruição dos complexos organo-minerais, acelera a degradação da matéria orgânica do solo e piora a composição mineral.

      A aplicação de fertilizantes minerais, também denominados Materiais Primários Amorfos ( MPAs ), torna-se obrigatória para a prática de uma boa agricultura sustentável ( vale dizer Regenerativa ) , rentável e em qualquer tipo de solo.

3.    O Silício aumenta a resistência do solo contra a erosão provocada pelo vento e pela água. A aplicação de silicio mineral ao solo, remedia e restaura a sua estrutura, aumenta a capacidade de retenção de agua (entre 30 até 100 % ) e a capacidade de intercambio catiônico, sobretudo em solos com pHs superiores a 7.0. A formação de agregados coloidais, aumenta a estabilidade frente a erosão.

O Silício ajuda e aumenta o desenvolvimento do sistema radicular das plantas e pode aumentar a massa de raízes de 50 até 200% !!! o que teoricamente propicía as plantas absorverem mais nutrientes ( calcula-se que incremento das raízes em 100% aumentaria am até 8 vezes a sua absorção )  e também estimula o número de talos por semente ( razão pela qual especula-se que os milhos da civilização maya, que produziam até 7 espigas por planta, segundo registros arqueológicos, eram cultivados em solos ricos em silício.

4. O Silício aumenta a resistência à seca nas plantas. A fertilização dos solos com silicio pode aproveitar o aproveitamento da água de irrigação de 30 a 40% e . com isso, ampliar os intervalos de irrigação sem efeitos negativos sobre as plantas. Além disso, a aplicação de Minerais Primários Amorfos Silicatados ( MPAs ) permite completar a reabilitação dos solos afetados por sais ( salinizados ), compactados e com baixos níveis de pH ( ácidos ).

5. O Silício neutraliza a toxicidade causada pelo alumínio em solos ácidos muito melhor que a Calagem.  Existem quatro mecanismos possíveis para a redução da toxicidade provocada pelo alumínio, pelos compostos ricos em silício, como a formação de ácidos silísicos ( orto e meta ), formação de colóides, formação de polímeros de silício e/ou de complexos alumino-silicatos. A calagem possui os mesmos mecanismos. Porém a aplicação de calcário, tanto calcítico quanto dolomitico, infelizmente, fixa o fósforo e o transforma de solúvel em não assimilável. Ao empregar materiais silícicos ao solo para a redução do toxicidade ao alumínio e para a optimização do pH, melhora-se muito a nutrição com o Fósforo, Ferro, Potássio, Zinco já que o Silício ativa o intercâmbio catiônico e a mobilidade dos nutrientes. Ademais, a calagem, dependendo da quantidade usada, também indisponibiliza a maioria dos micro-nutrientes.

6. O Silício aumenta a nutrição do fósforo das plantas de 40 a 60% e incrementa a eficiência da rocha fosfatada de 100 a 200% !!! Essa mesma Rocha tão importante, mas tão vilipendiada pelos acadêmicos do brejo a soldo da indústria de fertilizantes solúveis. Uma forma mais inteligente de formular fertilizantes fosfóricos seria misturar a própria rocha fosfórica (que contém silício) com fertilizantes químicos solúveis,  como por exemplo fosfato de rocha e MAP, ou Zeólita e MAP , já que os minerais primários são carregados eletronegativamente enquanto que os de síntese químicos são carregados eletropositivamente e, portanto,  possuem cargas elétricas opostas, que se atraem, e assim sendo retardando a dissolução desses compostos extremamente solúveis no solo tornando esses agentes químicos em fertilizantes mais inteligentes e de ultima geração, mais amigáveis ao meio ambiente e com valor agregando, devido a sua liberação mais lenta.

7. O Silício promove a colonização por microrganismos simbióticos ) bactérias e fungos ) . O Silício mineral promove a colonização das raízes por algas , liquens, bactérias e micorrizas , melhorando a fixação e a assimilação de Nitrogênio e Fósforo, entre outros minerais.

8. O Silício reduz a lixiviação de Fósforo, Nitrogênio e Potássio nas áreas de cultivo agrícola. O Silício, como melhorador, pode reduzir a lixiviação de nutrientes em Solos arenosos e guarda-los e uma forma disponível para a planta, como colóides e polímeros de Silicio.

9. O Silício aumenta a resistência da planta a salinidade. A fertilização com silício pode aliviar o estresse causado pela salinidade nas plantas cultivadas. No entanto, existem poucas hipóteses que expliquem o efeito do Silício sobre o estresse salino.

10. O Silício protege as plantas contra o ataque de bactérias, fungos e insetos. A acumulação de silício nos tecidos da epiderme na forma polimérica, orgânica e cristalina, permite proteger e fortalecer mecânica e bioquímicamente os tecidos das plantas. O Silício tem sido empregado eficazmente para proteger a planta contra inúmeras enfermidades e ataque de insetos, tanto quanto os inseticidas e fungicidas , porém sem efeitos negativos contra o meio ambiente. O Silício aumenta a quantidade de tricomas de 20 a 80%.

11. O silicio restaura áreas contaminadas por metais pesados e hidrocarbonetos. Os fertilizantes à base de Silício podem neutralizar o efeito tóxico de metais pesados e restabelecer a fertilidade dos solos afetados.

12. O Silício melhora o uso dos biosólidos. A mistura de biosólidos com esterco de gado e composto rico em minerais silicatados ativos podem transformar a presença de contaminantes ativos e tóxicos , em materiais inertes, e além disso potencializa os elementos minerais contidos nesses produtos, reduzindo a lixiviação.

13. O Silício tem ação sinérgica  com o Cálcio, Magnésio, Ferro, Zinco e Molibdênio. Esses seis elementos tem ação sinérgica, otimizando o desenvolvimento e a produção dos cultivos. Também melhora a vida Pós Colheita de produtos muito perecíveis.

14. O Silício é parte integrante da estrutura dos tricomas. Em plantas de feijão, cana de açucar, batata, tomate e pimenta, o Silício aumento o número e o tamanho dos tricomas estruturais e glandulares, já que forma parte integrante da sua estrutura e pode ser o mecanismo pelo qual o Silício melhora e aumenta a resistência das plantas as pragas e doenças.

15. Finalmente o Silício aumenta a produtividade na horticultura. Hoje a agricultura mundial carece anualmente de umas 800 mil toneladas de fertilizantes minerais ricos em Silício para promover o desenvolvimento de uma agricultura saudável, regenerativa e, portanto, sustentável. Isso ocorrerá invariavelmente em solos com mais de 700 tons de Silício/ha e pH maior que 7,5, e eu acrescento, com uma diversidade microbiológica robusta e pujante.

Portanto, não seria por falta de pesquisas mas sim pela escravidão e submissão a uma visão deturpada e estereotipada de uma suposta essencialidade que impede a verdadeira ciência agrícola de avançar, as expensas do bolso dos agricultores e obriga aos produtores de excelentes MPAs , como por exemplo a “Green Sand” ( Glauconita) e outros, a quererem comercializar seus produtos como fornecedores de K, em substituição aos fertilizantes de síntese químicos, quando na verdade todos os efeitos benéficos que foram obtidos até o momento por esses materiais, terem sido obtidos devido ao Silício que os compõe e não ao Potássio, se constituindo dessa forma então, e por assim dizer, em mais um estelionato agronômico chancelado pelo MAPA, ao permitirem alegações totalmente sem fundamentos científicos. Pós de Rocha Silicatados fornecem Silício e não Potássio. Ponto Final. O mesmo ocorre com um famoso termofosfato que contém Silício mas que contém, também, Fósforo. Excelente produto mas que a miopia impede-os de ver quem na verdade faz toda a diferença, isto é, o SILÍCIO, a pedra angular da Agricultura.

Literatura Citada

  1. Hopkins, C.G. ( 1910 ) Soil Fertility and Permanent Agriculture, Ginn & Company, 653 pgs.
  2. Gutierrez, Edgar Quero ( 2024 ) Ciência de Frontera. Innovaciones Tecnológicas al Servicio de la Milpa, Al Servicio del Campo, Secretaria de Agricultura y Desarrollo Rural ( SADER ), Ciudad de Mexico, Mexico, 444 pgs.
  3. Latshaw,W.L. ( 1929 ) Elemental Composition of Corn Plant, J. Agr. Research, Vol XXVII, No. 11, 845-859

5 comentários em “Silício”

  1. Prezado professor, o artigo deve servir de lume aos que lutam na agricultura, dando a devida importância ao fato de que o planeta Terra se constitui de 47 a 48% de silício, quase a metade, só sendo menor que o oxigênio em sua constituição. A natureza é sábia e trouxe no silício a essencialidade que ainda precisa ser conhecida.
    Parabéns pelas loas ao Dr. Quero.

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  2. Parabéns pelo texto e muito obrigado por compartilhar conosco seu conhecimento.
    nos agricultores temos que estar atentos pra não se deixar levar pelo sistema que empura goela abaixo a tal tecnologia de altas produções que na verdade só dão resultados às multinacionais fabricantes de perfumaria pra agricultura.
    Eu comecei com manejo de agricultura regenerativa a 7 anos usando Rocha silicatica como principal fonte de nutrientes meu custo e muito reduzido e minha produtividade acompanha a média de quem trabalha no método agricultura moderna e perfumaria em geral.
    temos que pensar em lucro por hectare e não em sacos por hectare .
    um grande abraço a todos
    Alison waldrich fonseca

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  3. Olá Dr. Vinagre!
    Grato por ter notícias do Sr.. Vou plantar milpa e foi muito bom descobrir o trabalho do Dr. Quero. Artigo muito útil! Estou comprando insumos biológicos e lembrei do silício graças a ele.

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