Construindo a Rede Alimentícia do Solo
Escrito por Hugh Lovel
Traduzido por José Luiz Moreira Garcia
Rizomas de Gengibre normalmente contém endofíticos, que são microrganismos que vivem entre as células das plantas. Isso significa que não existe nenhum problema em encontrar as culturas de microrganismos apropriadas com o gengibre. Um pedaço de rizoma que você planta (propágulo ou “semente”) traz consigo várias espécies desejáveis (NT-1).
Isso também é verdade com alho, batata, cúrcuma, cará e inhame e até sementes como amendoim, abóbora e milho. Esses endofíticos frequentemente envolvem leveduras e lactobacillus, mas eles podem também incluir actinomicetos e espécies fixadoras de nitrogênio.
O Gengibre é particularmente eficiente em abrigar esses dois últimos grupos. Normalmente, toda essa microbiologia endofítica depende da fotossíntese da própria planta para suprir a sua energia sob a forma de uma seiva rica em carbono (açúcares, aminoácidos, etc.). Isso significa que todo esses açúcares abundantes produzidos pelas plantas e exsudatos ao redor das suas raízes são os alimentos com os quais essa microbiologia se originou.
O Gengibre, como uma planta de sub-bosque da floresta tropical, é muito eficiente na sua fotossíntese (NT-2). A fim de extrair o máximo dessa característica do gengibre, eu cheguei à conclusão de que o melhor espaçamento para as “sementes” foram de 15 a 20 cm nas linhas com três ou quatro linhas em paralelo também espaçadas de entre linhas de 15 a 20 cm formando um canteiro pesadamente coberto por um “Mulch”, espaçado entre eles por ruas de 1 metro de largura (NT-3). Eu faço sulcos rasos, comprimo meus rizomas-propágulos, cubro com uma camada leve de solo e coloco uma camada pesada de “Mulch” (cobertura morta) – muito simples.
Naquele espaçamento eu consigo uma sobreposição suficiente de exsudato radicular que a biologia do solo rivaliza com a densidade populacional de uma megalópole e ocorre uma densa ramificação ao longo dos pelos absorventes.
Esse espaçamento denso também desenvolve uma parte aérea que – junto com o Mulch – exclui o mato e proporciona habitat para várias espécies de animais de solo, vivendo, se alimentando e proporcionando um fluxo constante de nutrientes recém digeridos (NT-4).
Como funciona?
Todo esse arranjo é alimentado pelo fato de que as plantas fotossintetizam e compartilham parte da sua energia na forma de carboidratos complexos temperados com proteínas, hormônios e enzimas fornecidas pelas raízes.
Isso fornece bastante energia para as micorrizas e actinomicetos que solubilizam o silício, liberam cálcio e para as bactérias que solubilizam o fósforo e fixam o nitrogênio.
Obviamente, esses fungos e bactérias não se auto sacrificam e liberam seus nutrientes diretamente as plantas. Protozoários e outros pequenos animais de solo (NT-5) comem e digerem os microrganismos ricos em silício e nitrogênio, liberando seus nutrientes na forma de aminoácidos e complexos minerais.
A cobertura morta (Mulching) favorece esse processo por proporcionar um habitat para os animais que se alimentam ao redor das raízes onde a assimilação de água e nutrientes ocorre.
Sendo esse um processo contínuo ao redor das raízes ativas, essas plantas adquirem um aspecto luxuriante ao consumirem seus nutrientes na forma de aminoácidos e complexos minerais recém digeridos antes que os mesmos sejam degradados a nitratos e outros sais.
Felizmente, quando as plantas absorvem nitrogênio na forma de aminoácidos ao invés de nitratos a sua capacidade de construir e montar proteínas complexas é mais direta e eficiente, tornando-as menos “aguadas” devido a terem que processar nitratos.
Então, a fotossíntese fica mais eficiente, o que aumenta e torna a exsudação radicular mais rica , e que faz com que a atividade microbiológica fique mais robusta ,e que se traduz em mais absorção de silício, liberação de cálcio, fixação de nitrogênio e a solubilização de fósforo mais abundantes, o que aumenta consideravelmente a atividade digestiva ao redor das raízes e que alimenta a planta com um fluxo de nutrição cada vez mais rico num rodízio cujo limite é ainda inexplorado e desconhecido.
É altamente duvidoso se alguma forma de fertilização química pode resultar em maiores produções, muito menos atingir a qualidade desse sistema natural (NT-6).
Enquanto a planta está fornecendo açúcar a microbiologia do solo, e a Rede Alimentícia do Solo (Soil Food Web) retroalimentando-a com minerais complexos e aminoácidos, a planta estaria dando mel ao solo, e o solo dando leite em retorno a planta.
Eu particularmente gosto do gengibre porque ele devolve grande parte do carbono que captura de volta ao solo. Não perde muito tempo desenvolvendo muita parte aérea e gosta de aglomeração – o que resulta num grau incomum elevado de sobreposição de exsudatos radiculares.
Nas figuras que seguem eu fiz um mulch com aparas de gramíneas que usei numa camada fina , junto com um mulch de bagaço de cana e feno de capim ou casca de arvores moídas. Como estava seco no plantio eu irriguei adicionando doses ocasionais de substâncias húmicas na forma liquida (NT-7), como um estimulador ( booster) de micorrizas. E apliquei todos os preparados biodinâmicos incluindo o Preparado 500 e 501, o preparado de Silica (NT-8), e Fladen ( composto de barril). Não somente agitei os preparados (dinamizei) e pulverizei como também irradiei-os com 24/7/365 usando um irradiador de campo (NT-9) conhecido como Field Broadcaster.
Afinal de contas eu estava trabalhando com um solo quase morto que tinha ainda um longo caminho para adquirir vida.
O que o gengibre pode fazer?
A foto abaixo mostra alguns dos materiais de plantio (“mudas”) obtidos de uma fazenda biodinâmica (Aracaria Farms) de Mullumbimby, em New South Wales.
Tinha uma rica camada difusa de actinomicetos crescendo de suas raízes e se estendendo pelo solo. Esses microrganismos são bons em comer dentro das argilas(alumino silicatos) do solo para liberar silício, que é o que faz com que os seus pelos se tornem excelentes canais condutores.
Eles também têm a virtude de desbloquear cálcio e outros nutrientes presos no complexo Argila/Humus do solo, liberando um armazém de minerais enquanto desenvolvem uma floresta de fios que trabalham junto com bactérias e protozoários.
No meu modo de v er, cultivar gengibre parece ser a forma mais simples de cultivar esses mesmos microrganismos que eu quero ver prosperando abundantemente no meu solo- e ai, então, eu posso permitir que as cepas mais vigorosas para aquele solo possam prosperar e predominar naquela localidade.
Receitas e Fotos
A maioria das fotos que seguem mostram a minha produção na colheita- cultivada sob Much com irrigações ocasionais que incluíram preparados biodinâmicos e algumas aplicações de humatos junto com um pouco de kelp e hidrolisado de peixe em um solo que não estava funcionando antes desse plantio.
Vejam como estava densa os aglomerados de plantas de gengibre. A pequena distância entre os internódios significa um conteúdo rico em silício , que se correlaciona com tanto com a qualidade de ter uma vida pós-colheita mais longa quanto a sua potência como planta medicinal. Esse é um gengibre com uma rara pungência que irá produzir um chá mais potente quando fervido, ou curries mais picantes ou pratos da culinária oriental.
Eu investi em um pequeno fatiador Deli e conservei bastante como Sushi Ginger usando um Vinagre de Arroz/Vinagre de Maça, Mel, Sal, tempero para conserva de pickles e folhas de Shissô Vermelho (NT-9). Me arrependo de não ter feito três vezes mais Sushi Ginger – Temperado e delicioso. O restante da colheita ficou na minha garagem por 4 meses sem refrigeração. Nesse mesmo instante em que escrevo esse capítulo estou plantando um novo canteiro.
Enquanto o gengibre foi excelente, o grande negócio foi o que ele fez pelo meu solo. Gosto de plantar para melhorar o solo ao invés de exauri-lo, e o gengibre seguramente faz isso (NT-10)
Nos trópicos eu faço um cultivo de milho após a colheita do gengibre, que não se dá bem com o frio. Ainda assim, o milho teve um arranque vigoroso, sobreviveu geadas moderadas e ainda produziu uma colheita razoável – o que só acontece quando as raízes são colonizadas pela melhor biologia desde a emergência. Todo o trabalho de horticultura nessa série de fotos foi feito com ferramentas manuais e nos fins de semana. A colheita do gengibre e o cultivo subsequente dos canteiros foi feito com um forçado ao invés de enxadão – de tanto que o solo ficou descompactado e fácil de ser trabalhado.
As duas imagens acima mostram o Gengibre colhido (vistas da esquerda e direita).
Estas outras duas imagens mostram ramas densas de gengibre, e essa robustez é atribuída à ótima absorção de sílica — um dos pilares da fertilidade biodinâmica.
Depois da colheita, o solo apresenta boa estrutura e vitalidade, e as raízes de gengibre mostram ramificação densa — evidência de um solo saudável e de processos biodinâmicos funcionando plenamente.
Referências
- Lovel, Hugh (2004) – A Biodynamic Farm – For Growing Wholesome Foods, Acres USA Publishers, Austin, TX, USA, 215 pgs.
- Lovel,Hugh ( 2014) Quantum Agriculture– Biodynamics and Beyond, Quantum Agriculture Publishers, Blairville, Georgia, USA, 216 pgs.
Notas da Tradução
NT-1 – O gengibre, assim como outras espécies de plantas, como citrus, goiabas, plantas medicinais, etc… também trazem consigo outras espécies de microrganismos, que tanto podem viver dentro das plantas endofíticamente sem causar nenhum dano, como também , sob determinadas condições, virem a causar danos a lavoura como Phyllosticta zingiberi ( amarelinho ), P. Citrii ( mancha preta ). O que a “ciência” agrícola deveria estar se perguntando seria o porquê disso estar acontecendo ao invés de ficar procurando qual molécula deva ser aplicada para controlar o problema.
NT-2 – Tanto é verdade que durante muitos anos cultivei gengibre embaixo de sombrite com 50% de bloqueio da luz e obtive produções recordes.
NT-3 – Ainda me recordo que no início da década de 90, tive oportunidade de comprar um gengibre maravilhoso de um brilho excepcional e extremamente precoce ( já se encontrava totalmente maduro em Junho ) de um produtor de origem japonesa no município de Registro, estado de São Paulo, cuja esposa era quem plantava o gengibre nesse sistema de canteiro e não fazia a chamada amontoa ou “ chegação de terra “, mas fazia um mulch pesado com esterco de curral que vinha do estábulo já misturado a serragem de madeira e previamente curtido.
NT-4 – Quando iniciei minha carreira na exportação de gengibre, no maior polo produtor da época (Registro, Sete Barras) existiam dois sistemas de plantio. Fileira simples e fileira dupla. O sistema que acabou prevalecendo foi o de fileira simples, por um único motivo – a facilidade de se fazer a amontoa ou “chegar terra”, pois a tendência desse rizoma é sempre procurar a luz e sair pra fora da terra. Entretanto, já naquela época era possível colher-se 90 tons/ha com sistema de fileira dupla, pelo simples fato das fileiras serem espaçadas entre si por 45 cm, com ruas de 90 cm, o que permitia que a adubação fosse feita entre uma fileira e a outra na cavidade que era formada naturalmente ali, permitindo um aproveitamento quase que total do fertilizante e pela sobreposição das raízes. Já na adubação de cobertura em fileira simples o fertilizante tinha que ser colocado na “parede” inclinada da leira e era bastante desperdiçado. Além desse fato, a população no sistema de fileira dupla é bem maior que no sistema de fileira simples. Portanto, é preciso que se volte a considerar o plantio em fileira duplas, com base no conhecimento atual, já que o ideal, que seria o de canteiros, ser difícil de ser implantados em grandes áreas.
NT-5 – Uma outra classe de animais microscópicos de solos também muito importantes fazendo essa mesma função seriam os nematoides benéficos do tipo bacteriófagos e micófagos. Assunto abordado no artigo “ Relação Ca:Mg” publicado aqui no blog.
NT-6 – Essa é a verdade cristalina que a “ciência” agrícola de recusa a aceitar.
NT-7 – Substâncias húmicas são reconhecidamente estimuladoras da fração fúngica do solo.
NT-8 – Hugh Lovel, o qual tive a honra de conhecer e conviver por um curto espaço de tempo, desenvolveu comigo uma forte afinidade que nos aproximou no desenvolvimento das chamadas Torres de Irradiação de Padrões Biodinâmicos. Na sua visão, acreditava que Dr. Rudolf Steiner não teve a necessária oportunidade de esclarecer a importância que existe na Argila para servir de interface entre a Sílica e o Humus ( Esterco ), por uma série de razões que incluiu falta de tempo hábil pois pretendia faze-lo e um segundo curso sobre a Agricultura, o qual não foi possível de ser ministrado, ou seja, interface entre os Preparados 500 e 501. Razão pela qual criou o Preparado de Argila, cuja forma de preparação encontra-se descrita em seus livros.
NT-9 – Erva aromática da família do hortelã, amplamente usada na culinária japonesa para dar cor avermelhada e sabor em conservas. Perilla frutescens
NT-10 – Além do gengibre, outras plantas também tem essa característica de melhoradoras de solo como por exemplo o Cará (Dioscorea alata), por trazerem outras espécies de endofíticos no interior das suas células do material de propagação.



