A contaminação do Arroz por Arsênico (As)

Jose Luiz M Garcia
Engenheiro Agrônomo, M.Sc.
Fisiologia e Bioquímica de Plantas
MSU Michigan State University

Ultimamente tem aparecido na grande mídia algumas matérias sobre o que chamam de “contaminação de grãos de arroz por Arsênico”. Considerando o nível de baixa informação que esses artigos e vídeos apresentam, e por ser um assunto importantíssimo à saúde das pessoas, resolvi escrever esse artigo
para colocar definitivamente “o pingos nos i “ e ao mesmo tempo abordar mais
uma vez maneiras de solucionar esse problema usando métodos naturais e não tóxicos, que não são ensinados, infelizmente, em nossas Universidades.


Em primeiro lugar quando falamos em Arsênico, e principalmente Arsênico tóxico, há que se considerar o tipo de arsênico que estamos a falar. Ou seja , Arsênico Inorgânico tóxico, ao homem, presente no solo e na água, na forma de Arsênico trivalente, de Arsenito e de Tricloreto de As, que são letais por inibirem diretamente enzimas necessárias ao metabolismo humano. Mas existe
também o Arsênico Pentavalente que inclui os sais de arseniato, embora ligeiramente menos tóxico que o tri valente, ele pode se transformar em As trivalente dentro do organismo humano.


Já as formas orgânicas de Arsênico, com a Arsenobetaína e a Arsenocolina, são consideradas praticamente não tóxicas, pois o corpo humano as elimina rapidamente pela urina sem causar graves danos.


Dito isso, o que precisa ser entendido é que as fontes de contaminação, nesse caso específico, não são pelos chamados agrotóxicos, como nos demais casos. Portanto, esse problema foge um pouco ao maniqueísmo do tradicional discurso do Bem contra o Mal, tanto ao gosto daqueles ecologistas e naturebas
de plantão. Existem exceções, como no caso das substâncias húmicas originárias da China, também conhecidas por (pasmem) Leonardita, tanto em voga na chamada Agricultura Regenerativa, que tem apresentado níveis elevados de Arsênico.

O Arsênico, diga-se de passagem, está presente no solo e na água de irrigação. Ponto. Acontece que a planta do Arroz (Oriza sativa L.) é uma planta considerada extremamente acumuladora de Arsênico.


Portanto, em se falando de grãos de arroz, valeria a pena dizer que o arroz entre todas as plantas, tem a capacidade de absorver até 10 vezes mais que as outras plantas. E que esse arsênico se acumula preferencialmente nos grãos.Isso é uma característica dessa espécie. Além do mais, e para complicar ainda mais a situação, uma variedade pode acumular mais que a outra. Ponto.
Não há discussão sobre esses aspectos. Tudo o que foi dito até aqui foi o que a ciência e a experimentação agrícola observaram e estabeleceram, existindo, portanto, um consenso.


Para complicar ainda mais o problema, o cultivo de arroz inundado tira, dos organismos de solo, a capacidade de funcionarem aerobicamente e com isso, de converterem essas formas inorgânicas tóxicas a formas orgânicas menos tóxicas.


Então, como resolver esse problema ?

Apresentarei a seguir algumas medidas que irão ajudar muito a resolver
esse problema sob o ponto de vista agronômico.

  1. Variedades – A literatura cita variedades de arroz que acumulam menos arsênico como arroz Basmati indiano, o Jasmine Tailandês, além deoutros como os arbóreos. O problema de se consumir variedades que acumulam mais As, é a possibilidade de se desenvolver a chamada contaminação crônica, já que o brasileiro médio consome arroz quase todos os dias.
  2. Arroz Inundado – O plantio de arroz inundado impede que os microrganismos aeróbicos de solo, notadamente os fungos, e bactérias aeróbicas, transformem o Arsênico Inorganico tóxico , em formas orgânicas menos tóxicas. Assim. procure fazer inundações periódicas e pelo menor tempo possível sem, contudo, comprometer a irrigação.
  3. Aumentar a microvida do solo – Notadamente com organismos anaerobicos e/ou facultativos . Embora a pesquisa internacional tenha demonstrado que o Bacillus subtilis melhora bem a conversão de Arsenico tóxico a não tóxico, embora seja valido considerar que existam outros organismos que façam o mesmo e essa mesma pesquisa nacional e internacional está devendo essa resposta. Para facilitar e melhorar esse mesmo mecanismo eu ainda sugiro a utilização de Substâncias Humicas, ricas em ácidos humicos, pois já foi demonstrado que essas substâncias quando adicionadas ao meio contendo Silício e microrganismos facilita muito a solubilização das fontes de Silício ( 1 ). Chamo apenas a atenção para o fato de serem Substancias humicas de origem confiável, com a americana e a canadense. E também para o fato da maioria das fontes disponíveis no mercado de Silício serem de baixa disponibilidade como por exemplo é o caso dos chamados “Pós de rocha” ou Remineralizadores”. São exemplos do barato que sai caro. No ultimo ano temos trabalhado com uma fonte de Silício de Precipitação Marinha de origem Paraguaia cuja origem é uma jazida localizada no fundo do antigo Mar Paranaense, que existiu de 10 a 20 milhões de anos atras e que funciona bem melhor que os demais testados ( 5 ).
  4. Silício – Como é de conhecimento geral , o Silício tem a capacidade de reduzir a absorção e a toxicidade do Arsênico Inorgânico das plantas ao competir por canais de transportes nas raízes e por imobilizar esse matalóide no solo. O elemento diminui a entrada de Arsenito e Arseniato – formas comuns de arsênico no solo e estimula as defesas internas que impedem o transporte do tóxico para a parte aérea . Os mecanismos de ação do Silício para diminuir a contaminação já foram bem estudados e baseiam-se em : A- Competição de Transporte , B- Retenção de Raiz e Aumento da tolerância ( 2,3,4).

Além do mais, conforme é conhecido de todos o Silício na cultura do arroz é conhecido por aumentar a resistência dessa plantas ao ataque de doenças e pragas, aumentar seu ganho em produtividade por permitir as plantas uma melhor arquitetura que favorece a captura dos raios solares, melhorar a resistência ao acamamento bem como a tolerância aos estresses hídricos.


Recentemente descobriu-se o aumento que o Silício proporciona na disponibilidade do fósforo no solo que se encontra fixado nas argilas bem como na melhoria da estruturação do solo, descompactando-o, e com isso melhorando a penetração de oxigênio no solo, além de aumentar a retenção de umidade e reduzir a toxicidade por Alumínio e Manganês.


O Silício, esse grande equalizador do solo, é sem sombra de dúvidas o principal aliado do agricultor para ajudá-lo a solucionar esse e outros problemas.

Referências

  1. Gutierrez. Edgar Quero ( 2024) CIÊNCIA DE FRONTERA, Edições Livro do
    Campo, Secretaria de Agricultura y DesarrolloRural (SADER ), Mexico.
  2. Ghulan, A. et all (2018) Arsenic Uptake,Toxicity, Detoxification,and Speciation
    in Plants: Physiological, Biochemical, and Molecular Aspects, Int J
    Environmental Res Public Health, Jan 2, : 15(1) 59.
  3. Guo, Wei et all (2009) Arsenic Uptake is suppressed in a rice mutante
    defective in silicon uptake, J Plant Nutrition and Soil Science, vol 172 ( 2 ): 867-
  4. Khan, T. et all ( 2022) Silicon-induced tolerance against Arsenic Toxicity by
    Activating Physiological, Anatomical and Biochemical Regulation in Phenix
    dactyfera ( Date Palm ), Plants ( Basel ), 2002, Aug 31, 11 (17) : 2263.

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